quinta-feira, 3 de março de 2011

O COMPENSADO NAVAL

Ouve-se com muita freqüência de “entendidos” em construção naval que o compensado de cedro não tem substituto na construção de um barco pelo sistema WEST (Wood Epoxy Saturation Technics). Já faz um bom tempo que pesquizei e me informei sobre os compensados fenólicos de virola (Virola surinamensis) e de pinho para serem utilizado em construções navais com esta técnica. E ví barcos (bem construidos e mantidos) que navegam a anos com estes compensados sem sofrerem delaminações. A alguns anos, tive a felicidade de poder estar com o Cabinho e sua esposa Eilen na Marina da Glória a bordo de seu maravilhoso multichine 28 Fio. Por aquela ocasião eu ainda estava com o Alles Klar, um Newport 254 de fibra projetado por ele, e do qual eu carecia de mais informações técnicas. Ele me passou essas informações e a conversa depois derivou para  a construção amadora. Entrando no tema dos compensados navais, ele me comentou "que o uso do compensado naval de cedro puro não se faz mais necessário em vista do avanço tecnológico das resinas epóxy".

Antes da resina epóxy muitos barcos de compensado eram laminados com resina poliéster, o que provou com o passar do tempo não ser adequada para este menester.
Em minhas pesquisas encontrei num fórum sobre construção amadora o seguinte:
 ....Segundo o eng. Jorge Nasseh no "Manual de Construção de Barcos", página 89:
"... As resinas poliéster não têm propriedades de adesão suficientes para laminação em madeira. É muito comum vermos algumas pessoas revestirem seus velhos barcos de madeira com fibra de vidro impregnada com resina poliéster e, mais tarde, arrepender-se, pois a adesão de tal produto à maioria das madeiras não é boa. ..." .Esta discução pode ser encontrada no link: 
http://nautica.com.br/forum/viewtopic.php?f=2&t=2450&start=105

Em outro Fórum de discussões. Luis Gouveia da Yacht Design diz o seguinte:
"As propriedades estruturais dos compensados navais se equivalem e não tem problema você substituir o de cedro pelo de virola. Uma observação importante é que o de virola é mais sujeito a ser atacado por cupim e outras pragas do que o cedro e é importante que você tenha mais cuidado na escolha das chapas individualmente e na estocagem. Depois de impregando com epóxi é difícil que algum bicho entre no compensado mas se ele já estiver lá dentro ele vai achar um meio para abrir um furo para respirar". O link é  http://groups.yahoo.com/group/yachtdesign/message/9943

James Wharram recomenda o uso de compensados feitos de madeiras de renovação rápida para a construção de seus catamarans. De fato pode-se ver pela internet barcos Wharran disign que foram construidos com compensado de pinho renovavel.  . Claro que ao comprar o compensado ou a madeira de reflorestamento, deve-se ter o trabalho de ir a madeireira ou depósito e escolher as melhores peças. No caso do mastro escolher as táboas sem nó e com as fibras o mais longas possível e no caso do compensado, escolher entre os de qualidade superior  os melhores.

Na foto abaixo,  o mastro de um tiki 26 sendo construido com pinho renovável



Deve-se portanto  ter a consciência de optar pela utilização de madeiras processadas renováveis e se possível,  que tenham a certificação FSC.
"A certificação florestal deve garantir que a madeira utilizada em determinado produto é oriunda de um processo produtivo manejado de forma ecologicamente adequada, socialmente justa e economicamente viável, e no cumprimento de todas as leis vigentes". Texto extraído do  link http://www.wwf.org.br/informacoes/questoes_ambientais/certificacao_florestal/

Aqui no Brasil ví umas amostras de pinus Taeda tratado. A resalva a ser considerada para as madeiras pré-tratadas contra insetos xilófagos é a da toxidade quando elas forem trabalhadas (cortadas e lixadas). Penso que se alquém quiser tratar a madeira seria melhor que o fizesse depois de montar o barco, antes de pintá-lo ou impregná-lo com epoxi. Tenho a dúvida de que depois do compensado receber uma demão de Jimo cupim ou similar, se o epóxi impregnará da mesma forma que antes.

Estes argumentos, pesquisados em fontes fidedignas são mais confiáveis que os “achismos” de pessoas que não estão pelo labor de aceitar e mudar conceitos que se tornaram ultrapassados, Portanto, já nao se pode justificar o altíssimo custo final de um casco como sendo necessários para que os mesmos sejam melhores que outros construidos com compensados fenólicos de outras madeiras mais baratas, renováveis e ecologicamente mais corretas.
A atençao que se deve ter aos compensados fenólicos de virola ou de pinho, é que sejam minuciosamente escolhidos, observando cada uma das quatro faces de sua espessura para detectar possíveis fissuras em seu miolo.


Falhas no laminado interior .  foto do blog caiaquedemadeira.blogspot.com/

falha no laminado externo (foto do blog caiaquedemadeira.blogspot.com/ )

Uma maneira muito fácil de detectar falhas no laminado interior em compensados de até 6mm com apenas uma lâmina de recheio entre as externas, é observar a chapa à contraluz (do sol ou melhor, de um potente refletor). Se houver fissuras internas elas se denunciam, pois se mostrarão mais claras. Já as chapas confeccionadas com 4 laminas (2 interiores) já não é possível, contudo, por ser de melhor qualidade estrutural, e pelo fato do miolo interior contar com 2 laminados com as fibras contrapostas, uma falha nela desde que pequena, não compromete quase nada. Nos compensados de apenas um miolo mais grosso, se a falha for detectada depois de cortada uma peça, ela poderá ser preenchida com epóxy de baixa densidade (mais fluido) aplicado com uma seringa.
Quanto à qualidade da cola, tenho pedaços de chapas sem qualquer proteção que ficaram expostas a intempérie por meses e que não delaminaram. A virola é muito suscetível ao bolor se estiver armazenada num local úmido. Se este bolor se fizer presente, basta apenas uma lixada com lixa fina para devolver a madeira a sua coloração original.
A eliminação de cupins em embarcações feitas com chapas de compensado de até 10mm pode ser feita de forma eficiente aplicando calor com soprador de ar quente. Não é preciso de um calor que venha comprometer a pintura ao aquecer uma chapa de 6mm para que o cupim ou qualquer outro inseto morra em seu interior. Já fiz a experiência e obtive sucesso, evitando ter que injetar veneno com seringa, o que em muitos casos, fica até impossível em alguns pontos da embarcaçao por falta de acesso. Ademais, deve-se considerar a toxidade inerente a estes produtos, sobretudo quando a sua aplicação se faz no interior de cabines. Ainda assim, se tiver dúvidas quanto a possível infestação de cupim na origem, passar o soprador de calor depois das peças cortadas seria uma boa medida, antes de laminar ou saturar com epoxi.
Para quem quiser ver o processo de construção de compensados acessem o link para o Blog Portal da Madeira:
http://portaldamadeira.blogspot.com/2010/04/contraplacado-processo-de-fabrico.html

QUANTO AOS CUIDADOS COM AS OBRAS VIVAS

Cuidar das obras vivas de um barco não é sómente fazer sua manutençao periódica, mas fazer um uso cuidadoso, de forma que estas manutenções possam ser feitas em espaços de tempo mais longos. Obviamente, a chegada do momento para refazer a pintura de fundo será determinada pela frequencia e local de uso do barco, assim como da qualidade da tinta venenosa utilizada.
Para um barco que fica na água durante muitos meses, deve haver por parte do proprietário uma inspeçao da obra viva com bastante frequencia e muita atençao. Ao detectar um desgaste anômalo na pintura das obras vivas,  deve-se sanar o problema com a maior brevidade, prevenindo assim um potencial risco de infiltraçao que venha a deteriorar o casco, tendo depois que arcar com custos e tempos maiores do que seriam preciso para se fazer apenas um pequeno retoque na pintura ou na fibra.

O catamaram, por seu baixo calado, permite que se aproxime mais das praias, contudo, mesmo com uma proteção na parte inferior da quilha, seria melhor para  pintura e a fibra próximas a esta proteção, deixar uma lâmina de água entre a quilha e a areia, evitando assim que o fundo fique sendo"lixado". Deixando os encalhes para quando realmente se fizerem necessários e em águas tranquilas, para que o casco não se movimente sobre o fundo, se estará aumentando de maneira significativa o tempo para se fazer a substituição da proteção inferior da quilha, mas principalmente, evitando que a pintura e a fibra ao longo da junção desta proteçao com o casco se desgaste prematuramente, evitando uma possível infiltraçao entre a pintura e a fibra, ou no caso de desgastes mais severos, entre a fibra e o compensado.

Embora os cascos de composite de fibra/epóxi/compensado, requeiram um maior cuidado, os cascos somente de fibra também estão sujeitos a absorsão de água por capilaridade pela fibra e a consequente osmose e/ou delaminação.

Vale lembrar que os barcos feitos de composite com compensado naval, são laminados com resina  epóxi que tem uma qualidade e propriedades mecânicas muitíssimo superior às resinas poliester utilizadas na laminação da quase totalidade dos barcos feitos sómente de fibra de vidro, ademais de que o reparo no composite de compensado é mais fácil  que em cascos sómente de fibra.

Na prática, tomando os cuidados descritos acima, para catamarans de até 26/28 pés a diferença no embarque ou desembarque da tripulaçao seria apenas entre deixar de molhar apenas as canelas, para molhar os joelhos, ou seja, quase nada.

19 comentários:

  1. Marcos,
    Parabéns belo Blog.Como esta a construção do novo Tiki. Quero conhece-lo.

    Marco Picanço

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  2. Marcos estive aí em Florianópolis, mas foi muito corrido, não deu pra te fazer uma visita. Concordo com vc quanto as encalhadas, venho de uma escola de monotipos onde até deixar o barco na aguá é um sacrilégio, quanto mais arrastar na areia. Mas o Tiki com uma boa proteção de uma barra chata de aço inox de 2" embaixo de sua quilha, principalmente na roda de proa, ou seja, na metade frontal dos cascos uma barra de 3 mts para proteger a proa, deverá ser a minha opção.

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  3. Roger, outra será, quando vier com mais tempo! Concordo com você que uma barra de inox despreocupará nos encalhes por um bom tempo. Contudo, esta barra tem que ser parafusada na quilha de madeira, que é justamente o que eu quis evitar para afastar toda e qualquer possibilidade de infiltração neste ponto neurálgico da obra viva. Outra preocupação era o desgaste da cabeça e da ranhura do parafuso, o que iria causar problemas na hora de substituir a barra no futuro, podendo ter que esmerilhar-los e correr o risco de ter que fazer uma “cirurgia” na quilha para poder extrair-los. Ao passo que se colar o PVC com sikaflex, você evita ter que fazer furos na quilha, mantendo a integridade da pintura, do laminado e da madeira da quilha. E a substituiçao fica facilitada. Porém, isto sim, o PVC tem que ser “muito bem” colado!

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  4. Ainda acho que o pvc não aguenta, a solução para os parafusos era fazer com que eles não chegassem na madeira, pode-se enterrar porcas numa faixa de epoxi que protegeria a quilha, ou usar parafusos auto atarrachantes sem chegar na madeira (fazer um belo reforço ao longo de toda superfície inferior da quilha.

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  5. Ótima postagem. Obrigado. Corresponde com minha própria experiência.
    Abraços,
    Peter

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  6. Olá Pessoal,

    Ao invés de uma barra chata eu colocaria um perfil "U" e os parafusos lateralmente na quilha. Onde seriam colocados os parafusos eu faria inicialmente um furo maior e encheria de massa epoxi para depois fazer o furo na medida precisa. Com isso teria resistência e impediria a infiltração.
    Provavelmente eu faça desta forma no Mås.
    www.catamaram-mas.blogspot.com

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  7. Com relação ao compensado eu acho que é mais importante a qualidade do mesmo, do que o material utilizado. Claro que devemos evitar madeiras resinosas, mas fora isto qualquer madeira será encapsulada pelo epoxi e totalmente mumificada.
    Quanto a insetos existentes no seu interior eu acho que eles terão umas duas horas para sair, ou nunca mais sairão.

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  8. tudo bem, mas e ai, qual o melhor o de cedro ou o de reflorestamento (pinho)?

    @braço a todos!

    Pedroni

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  9. Pedroni,aos que entenderam a postagem, o melhor seria os de madeira renovável.

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  10. bom dia! gostaria de sanar uma duvida o compensado de virola naval é vulneravel a fungos?
    Há um produto que possa eliminar esses fungos

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  11. Olá Jurojin,

    Se vc for impregnar o compensado com resina epoxi este é um problema ao qual vc não estará sujeito, pois o epoxi impermeabiliza a madeira e isto não permite a proliferação de fungos ou outros ataques biológicos a madeira.
    É claro que a impregnação precisa ser bem feita.

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  12. Olha amigo to querendo facer un veleiro de 12 mts. creo que es de 30 pé eu acho que as carverna tendria que ser de ferro a companhado com madeira en cada caverna creo que vou precisar uma ducia de caverna para depoes colocar as chapas de compensado de 5,mm so quero saver o mastro de que e como posso fazerlo? alguem me pode dar uma idea sou novato mas tenho um sonho de fazer um veleiro tran ocianico....si alguem tem um projeto me pode mandar tudo bem estarei agradecido...cualquer informaçao sera bem recivida...abelardo22@bol.com.br.....obrigado gente

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  13. Estou chegando bem atrasado, contudo, gostaria de saber como fazer compensado naval caseiro, usando resina epoxi. É possível? Qual sua opinião?

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  14. Silvestre, creio que não valha a pena pelo custo do epóxi e pelo trabalho que dá. Porque motivo você quer fazer as chapas de compensado em vez de compra-las prontas? A cola fenólica é mais barata que o epóxi, e é a utilizada pela indústria de compensado, contudo, ela precisa de pressão para colar, artesanalmente ficaria difícil conseguir uma pressão uniforme em toda a extensão da chapa. Vale muito mais a pena comprar o compensado pronto.

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  15. Excelente post! Veio a calhar pois ainda hoje encontrei em uma madeireira chapas de compensado (usado em carroceria de caminhão) com 2mx7m e espessuras entre 15 e 28mm o que reduziria em muito a necessidade de emendas. Obrigado.

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  16. gostaria de saber qual a cola que se usa para colar uma chapa de compensado naval em outra chapa

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  17. gostaria de saber qual a cola que se usa para colar uma chapa de compensado naval em outra chapa

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  18. Lira, o compensado naval é colado com cola fenólica resistente a água, parecida com a de nome comercial Cascofen.

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  19. 1.o.Quanto a compensados ha inumeras fabricas no Pr.Sc e Rs, que faz por encomenda e de acordo com a finalidade .Quanto as colas são:scuna(varios usos) e a araldite industrial, em algumas lojas vcs pode~rão encontrar a cascofem. Há um sistema chamado pelos americanos de West, que é agora muito usados pelos construtores dos barcos da VolvoRacing, é só ver

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